30 de jun de 2010

Bola de Cristal N°5 (por Rô)

Os pés pelas mãos

É tudo com ela.
A mão é soberana
Faz e acontece
Tem um misterioso pacto
Com o pensamento
Abre fecha
Puxa, empurra, segura.
Seu decantado design
É invenção de gênio.

Quando quisemos evoluir
Inventamos instrumentos
Aparelhos
Equipamentos
Prolongamentos
Seus (dela).
Querendo evoluir mais
Criamos sinais
Gestos
Alfabetos
E cada novo passo
Damos com as mãos.

Metida com o amor
E a morte
A mão é mais que real
É símbolo
Imagem
poder
Quanta habilidade talento
Quantos verbos
Tudo com ela.

De repente o planeta para
Bilhões
Atrás de TVs e Telões
Em campo
Pés protagonistas
Contam histórias
Onde são sempre
os grandes vencedores;
aqui, só aqui
diante de todo mundo
as mãos sempre perdem.

E todas as Mãos aplaudem.

29 de jun de 2010

A presença morena de Pak-Doo-Ik

Segundo a Wikipédia, essa espécie de Barsa escrita por mortais, Pak-Doo-Ik é o único jogador norte-coreano imortalizado internacionalmente por ser o autor do gol que desclassificou a seleção italiana nas oitavas de final da famigerada copa de 1966.

Desde criança, 1966 para mim significa duas coisas importantes, muito além do campeonato dos ingleses: o lançamento de Revolver dos Beatles e Coréia do Norte na copa. Nesse quadragésimo quarto aniversário de 66 algumas homenagens correram o planeta. A primeira delas é que me auto-agraciei-me da versão remasterizada do Revolver. As outras estão na copa da África. Itália eliminada cedo por um time sem expressão, os alemães vingando-se da final de 66 contra os ingleses, com direito a gol anulado por parte do english breakfast team, e, claro, o time da Coréia do Norte. Chorei junto com o Tae Se, mesmo que por dentro, durante a execução do hino norte-coreano na partida contra o Brasil. Lembrei de Pak-Doo-Ik, da tristeza do 3 a 5 contra o time sem vergonha do Eusébio e, principalmente, da estadia do time comunista na cidade de Middlesbrough. Foi uma felicidade sem fim, me lembro bem, mesmo não estando lá. Pak e seus amigos boleiros dançaram bailes, comeram fish and chips, sentiram ao vivo a swinging Middlesbrough dos anos sessenta. Até o prefeito se vestia com as cores da Coréia do Norte (que não por acaso são as mesmas da Grã-Bretanha). It's good to live in peace and I agree era o zeitgeist do plantel asiático que mais tarde seria utilizado por Caetano Veloso.

Outro dia passou um documentário sobre o imortal time coreano de 66. Um par de coisas me impressionaram no filme. A primeira: as gigantescas coreografias promovidas pelo Comitê de Coreografias Gigantescas Norte-Coreanas que ocorrem diariamente no Estádio Nacional de Piongyang. Não existe Bob Wilson ou abertura olímpica mais aterrorizante e sublimadora e bela e megalómana do que estas coreografias. Quem não teve a oportunidade de ver que procure. A segunda: a cara de felicidade, satisfação e benevolência do já idoso Pak-Doo-Ik. Cheio de condecorações no seu fardão e munido de um belo óculos de grau, Pak é o Che Guevara da Coréia do Norte, o Guimarães Rosa da Coréia do Norte, o Tom Jobim da Coréia do Norte, mesmo estando vivo.

O choro de Tae Se sempre terá razão.

7M


28 de jun de 2010

Futebol sangue e liberdade. (por 7D)

Nesta véspera de oitavas de final que é véspera de tudo e de nada, como em todo bom mata-mata copeiro, penso no Chile. Por uma cromoterapia ancestral sempre gostei das camisas vermelhas. Este sangue que é alma que corre no corpo e no campo, camisa sangue ao vento. Amanhã o sangue promete correr. As seleções chilenas costumam jogar qualquer competição como quem joga a Libertadores, o juiz é inglês e estes apitam como quem apita rúgbi. O sangue vai correr nas veias, nas camisas, no gramado.

Conversando com a bola de cristal sobre futebol e política lembro aqui de dois palcos futebolísticos que serviram como lugares de resistência aos Estados de exceção. Um destes lugares é o Defensores Del Chaco no próprio Chile. Ali 50.000 pessoas podiam gritar durante os jogos “Libertad, Libertad, Libertad” sem que a sangrenta polícia da ditadura Pinochet pudesse impedir. Outro célebre palco de resistência é o Camp Nou. O Nosso Campo como chamam os catalães torcedores do Barcelona era o único lugar da Espanha onde se podia falar catalão sem que a sangrenta ditadura Franco pudesse impedir. Nesta mesma Europa de horrores um time literalmente deu seu sangue numa luta simbólica contra o regime nazista.

Depois da invasão da Ucrânia em 1939 o país ficou em frangalhos. O Dinamo de Kiev, principal time ucraniano foi desmembrado. No entanto, Losif Kordic um ucraniano de origem alemã tocava uma padaria na cidade, apaixonado por futebol tirou das ruas o goleiro Mykola Trusevych. A única exigência de Kordic era que Trusevych encontrasse seus companheiros de equipe e formasse um time de futebol para jogar a liga local que os alemães acabavam de fundar. A tarefa não foi fácil, mas em 1942 o F.C. Start foi formado por oito jogadores do Dínamo e três do Lokomotiv. Os oficiais alemães acreditavam plenamente em sua superioridade e deixaram o Start se inscrever na liga seguros da vitória ariana. No dia 21 de junho de 1942 o Start arrasou uma guarnição Húngara por 6-2. Logo depois soldados alemães sediados na Romênia foram aniquilados por 11-0. Mais quatro goleadas atordoantes se seguiram contra os melhores times dos militares alemães. As notícias chegaram aos ouvidos de Hitler. Apaixonado por futebol o Kaiser Adolph fez seu time, o FC Schalke 04, vencer 6 das 9 temporadas em que estave no poder. Sendo assim não deixaria barato para os insolentes ucranianos. Para mostrar a força das divisões alemãs os nazistas enviaram o Falkef, a seleção da Luftwaffe, para derrotar o inimigo. No dia 9 de agosto de 1942 teve início a “Partida da Morte”.

O estádio de Kiev estava lotado e a propaganda nazista já espalhava as notícias da derrota anunciada do timeco da Ucrânia ocupada. O F.C. Start seria obrigado a repetir a saudação a Hitler antes da partida. Aqui começa a mais sangrenta história de resistência tendo como palco um estádio de futebol. Ao entrar em campo o Falkef bate com orgulho os calcanhares, estende as mãos e grita “Heil, Hitler” a plenos pulmões. Todo o Start repete o gesto, com os pés descalços, e grita “Fizculthura”, o slogan soviético da cultura física. O povo nas arquibancadas vem abaixo e neste caldeirão de pressões a partida começa com o jogo aéreo da Luftwaffe dando resultado, 1x0. Não demorou muito para a multidão em Kiev comemorar fervorosamente. O Start vira o jogo e vai para o intervalo vencendo por 3x1. Enquanto descansavam daquela tensão de guerra um oficial da Gestapo invade o vestiário e ameaça a todos: se vencessem aquele jogo não haveria mais amanhã, todos seriam fuzilados. Os jogadores voltam a campo resignados, com uma decisão tomada. O Start é arrasador e a torcida é toda deles. Suas jogadas e gols são ovacionados, qualquer jogador do Falkef sofre uma terrível vaia toda vez que toca na bola. O F.C. Start era imbatível e marca mais duas vezes, chegando ao placar de 5x1. Com a ajuda do juiz os adversários nazistas descontam duas vezes, 5x3. Com o jogo chegando ao fim o baile ucraniano tem seu solo de gala. Mykola Korotkykh, um jogador de defesa, dribla 7 jogadores do Falkef, passa pelo goleiro e, à lá Garrincha, para a bola na linha do gol, chuta de volta para o círculo central e sai caminhando para o vestiário, dando as costas para o campo, desdenhando de tudo. O juiz encerra o jogo com a grandiosa Luftwaffe humilhada em campo. A torcida incendiada aplaude e grita sem parar durante quinze minutos, com o campo já vazio! A partida só termina dali a uma semana, depois de um último jogo vencido pelo Start. Todos os jogadores foram mandados para campos de concentração, somente dois sobreviveram para contar a história.

Pensando nestes lugares de resistência, nesta “wound culture” da bola sinto que o esporte é um simulacro da guerra no Chile, na Espanha, na Ucrânia e na Europa como um todo. Mas não acredito que seja assim no Brasil. Quando os presos do Dops decidiram torcer para a Tchecoslováquia contra o Brasil em 1970 o fizeram por 59 minutos, mas sucumbiram ao gol da virada marcado por Pelé aos 14 do segundo tempo. Quando Saldanha diz “você escala o ministério que eu escalo a seleção” para Médici, expõe todo o ridículo da apropriação política do futebol. Pelé estava cego, como dizia Saldanha. O país em pânico temia perder seu craque. Mas Pelé estava cego assim como o 1° de Abril de 1964 foi o dia dos cegos. O Pelé calado é um poeta.

No Brasil futebol é muito mais que pátria, no Brasil futebol é mátria, feminina como a bola que é a razão de tudo.

7D

PS1: Todo o ucraniano que guarda seu ingresso daquela partida tem um assento vitalício no estádio Zênit em Kiev.

Nas fotos:

1 - Monumento aos heróis do FC Start, estádio Zênit, Kiev.

2 - Memorial para os mortos do FC Start em Siretz, Ucrânia

3 - Sobreviventes Goncharenko e Sviridovsky em visita ao monumento no estádio Zênit

4 - Cartaz promocional do jogo FC Start x Flakelf - Domínio Público Ucraniano

5 - Paul Radomski (foto de 1935), comandante do time nazista derrotado.


PS2:

Nos anos 80 essa história inspirou o bizarro e maravilhoso Fuga para a vitória, do diretor John Huston de sucessos como Relíquia Macabra! O filme tem um elenco estonteante: Sylvester Stallone, Michael Caine, e os ex-craques Pelé, o argentino Ardilles e o inglês Bobby Moore. No vídeo a hilária cena do Pelé dizendo que nasceu em Trinidad e aprendeu a fazer embaixadinhas com laranjas! I love the USA!



27 de jun de 2010

Bola de Cristal 4 (por Rô)

Bola e Poder

Brasil Hexa seria o clímax do governo do Lula. Já pensou?

Antes de começar qualquer tipo de discussão, vou logo avisando que não sou a favor nem contra, muito pelo contrário.

Só quero chamar atenção para esse outro prolongamento do fenômeno Futebol: a política.

Temos falado da “promiscua” relação futebol-midia, mas essa aí vai além. Não só o Futebol, mas o esporte em geral, sendo o “o velho e violento esporte bretão” como diria Luiz Mendes, outro grande radialista, o mais popular, e por isso mesmo, mais visado pelos políticos.

Nem precisa googlar, basta lembrar que isso já rolava na Grécia – o que eram os Jogos Olímpicos, senão uma forma de o Estado manter os cidadãos sarados para a guerra? Como esquecer o interesse de Hitler pelo esporte?


E Mohamed Ali se negando a ir pro Vietnã? Ou as falcatruas definitivas do Regime Militar Argentino na Copa do Mundo de 78?

No Brasil todos os governos sempre tentaram capitalizar as conquistas da nossa Seleção. De JK ao próprio Lula. Minto. Já em 1950 os políticos conseguiram desandar a maionese de véspera, exigindo que os jogadores posassem de vencedores antes mesmo do jogo.

E já se esqueceram do episódio bizarro da distribuição de fuscas do Maluf aos campeões de 70?

Essa foi, aliás, a copa mais politizada entre nós. Confesso que tive várias tentações de torcer contra, mas a Seleção é Brasil e, por mais calhordas e/ou truculentos que sejam nossos políticos, está acima dessas mesquinharias.

Foi brabo torcer por um time que o general presidente queria se meter na escalação do time e cujo treinador foi mudado em cima da hora por pressões políticas. Mas lá estavam Pelé, Tostão, Gerson, Rivelino, Brito, Jair, PC Caju, gente da melhor qualidade e ainda outros que ficaram de fora, como o genial Dirceu Lopes e o desconcertante Edu, companheiro de Pelé no ataque do Santos, titular do time do Saldanha, terceiro reserva no time do Zagalo.

A ditadura deitou e rolou no conceito “Pátria de chuteiras” criado pelo sempre genial Nelson Rodrigues. Por falar em genialidade, parece que nada mais se cria. E não faltam bons jornalistas.

A Copa de 70 desencadeou uma onda patriótica. Brasil viveu a Era do Milagre Econômico, a música do tri (90 milhões em ação, pra frente Brasil...) composto pelo genial Miguel Gustavo, jinglista e publicitário, sambista tocador de caixa de fósforos, abriu caminho para slogans mais agressivos do tipo “Ame-o ou deixe-o”. Surgem compositores especializados em marchinhas nacionalistas (leia-se fascistas) como Dom e Ravel.

“Eu te amo meu Brasil eu te amo...”

Uma dessas canções da dupla, muito bem feita, por sinal, foi adotada pela torcida do Flamengo ano passado, no Brasileirão.

Tudo bem, assim é se lhe parece, pátria de chuteiras, Estado como representação da sociedade, futebol como representação de cultura e nacionalidade. Em minha opinião, nada disso ajuda. O futebol é apenas um jogo, uma manifestação lúdica, brincadeira. Não fosse o jogo da bola assim tão atraente e emocionante, todo esse em torno de simulacros e representações, simplesmente não existiria. Simples assim.

Olha só que figuraças, um deles já falecido. O Brasil inteiro cantou com essa dupla, agora só a nação rubro-negra continua cantando, o que prova mais uma vez que música como a bola tem vida própria.

Maluf distribui fuscas as Tricampeões ...

...Lula mimoseia o chefe do Império com uma “amarelinha”

&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&

Pegadinha do Dunga – atenção crianças

DUNGA se acha um MESTRE?

Dunga é um cara DENGOSO?

Por que Dunga vive ZANGADO?

Não esta na hora de Dunga acordar dessa SONECA?

Será que o time do Dunga vai nos fazer FELIZ?

Não está faltando alguém nesse time?

Resposta: Sim. Tá faltando o ATCHIN

Amor México (por 7A)


Infelizmente hoje os aztecas se foram. Logo eles, mesoamericanos florescidos no planeta África. Pois é, nem o gol litúrgico de Hernandez pôde dar um sopro de esperança ao povo das ilhas artificiais. Sim, o jogador Blanco passou em brancas nuvens e o México a partir de agora seguirá as instruções dos seus deuses, voltando para casa tal qual uma águia pousando em um cacto. A serpente foi devorada sob os prantos de Roberto Gómez Bolaños, não o seu simulacro mal formulado pelo escritor chileno Roberto Bolaño, mas sim o Shakespeare daquele inconfundível país. Logo logo a Wikipédia em esperanto anunciará: Os corações vivos foram arrancados e levantados aos céus enquanto o sangue escorria sobre todos os seus degraus. Tudo foi telepatipatéticamente televisionado pela TV Azteca. Assim, em meio à romaria de tripés e lentes, El Chavo se despe e se despede tal qual o filósofo Diógenes em seu barril. É inegável que Chespirito unificou as Américas mais até do que Simón Bolívar, Colombo ou qualquer MERCOSUL de araque, me sussurra Sobrenatural de Almeida. Segundo os nossos amigos mexicanos, os astros e o sol precisam de suor e lágrimas humanas para nascerem todos os dias; aqui está! Esqueçam os clichês do futebol.

22 de jun de 2010

Sondando a insondável Búlgaria (por 7A)




A primeira vez que ouvi falar na Bulgária, eu não tinha a mínima noção que ela não existia. Foi na Copa do Mundo de 1994, a partir de Histo Stoichkov (o melhor jogador búlgaro da história), que me chegaram as primeiras notícias daquele insipiente país. Me lembro bem que o búlgaro comemorava cada gol com um grito lançado ao ar clamando por sua possível, mas incomprovada existência. Aliás nessa auspiciosa e abstrata seleção, não só Stoichkov tinha atos imprevisíveis, como o pirotécnico Letchkov também, seguido por Balakov, Ivanov e Penev. Com a camisa 8, Stoitchkov era o responsável por comandar um time que tinha talento, embora parasse tantas vezes nos seus próprios traumas. Mas, convenhamos, ninguém apostava um tostão furado nos búlgaros. Até 1994, nunca tinham vencido sequer um jogo em Copas do Mundo – isto porque já haviam participado de cinco delas; eram 16 atuações, com constrangedores seis empates e dez derrotas. Se a Bulgária existisse, consequentemente deveriam existir os búlgaros. Definitivamente 1994 foi um ano mágico e inesquecível para toda a cosmogonia búlgara e para sua bulgarosofia, como não poderia deixar de ser. Após a classificação heróica nas Eliminatórias, quando o time virou sobre a França e a eliminou no último minuto, em plena Paris; a tão sonhada primeira vitória viria em solo americano. Com um estrondoso 4 a 0 sobre o panteão decadente da Grécia, a maldição búlgara estava prestes a ser desfigurada, dizem que sob aplausos esfuziantes do escritor Campos de Carvalho.

O grande trauma búlgaro é ter que desafiar a lógica sempre que se quer vir à tona e virar o mundo de pernas para o ar. Como se sabe tais inversões sistêmicas não acontecem todo dia, e o esquadrão búlgaro, por exemplo, nunca mais conseguiu vencer em outra Copa do Mundo. Preferiu se recolher a sua tão estrondosa invisibilidade. Invisibilidade esta que vem assolando milhares de logicistas e bacharéis do bom senso ao redor do globo. Enquanto isso, em Sófia, Stoichkov continua exibindo intermitentemente seus passes de mágica como tantos outros búlgarologos fizeram no passado. Esta é a insofismável e ululante seleção base búlgara que clarificou o estádio nacional Vasil Levski em 1992-1996: 4-3-3. “Mihailov; Tzvetanov, Ivanov, Hubchev e Kiriakov; Yankov, Balakov e Letchkov; Stoichkov, Kostadinov e L. Penev.”




21 de jun de 2010

Bola de Cristal 3 (por Rô)

A galera está reunida. Vai começar mais uma madrugada futebolística, quer dizer, game-futebolistica. Enquanto os craques disputam na tela sempre alguém assume o papel do narrador, em geral de rádio.

Passa por dois, se prepara pra chutar, atira... é gol, goooooool, golaço!
Um gol narrado é quase melhor que o gol propriamente dito.

A grande invenção midiática do começo da era de ouro do nosso futebol foram as mesas redondas de comentaristas na TV. Algo meio impossível de dar certo no rádio. Foi nelas que ficamos conhecendo um gênio, Nelson Rodrigues, e outros protagonistas e coadjuvantes geniais como João Saldanha, Armando Nogueira, José Maria Scassa, Sandro Moreira e uns tantos outros.

A maioria tinha coluna em jornais: À sombra das chuteiras imortais, do Nelson (que nome foda!); Na Grande área, do Armando; a coluna de João, que não lembro o nome, acho que era Subterrâneos do Futebol e outros jornalistas que nos mostraram algumas abordagens possíveis de ver e analisar essa paixão coletiva.

João chegou a técnico da Seleção. Armando tornou-se por muitos anos o grande nome do jornalismo da Rede Globo. Dois notáveis botafoguenses numa época em que o Botafogo dividia com o Santos a gloria de ser a base das nossas seleções.
Com eles aprendi, por exemplo, ser possível conviver o torcedor apaixonado com o jornalista comprometido com os fatos. Algo que muita gente graúda no jornalismo hoje, com muito menos talento, não aprendeu.

João morreu em 1990, durante a copa do mundo na Itália. Trabalhou até o fim. Armando ficou mais tempo conosco e no último período de sua vida, nos presenteava semanalmente com um programa esportivo, onde se mostrava inteiro como poeta e amante dos esportes, especialmente do futebol.

Acho que hoje, o contestado Galvão Bueno é quem melhor representa esse amor antigo e essa convivência intima, futebol-midia.

Acho Galvão um dramaturgo, criador de plots, esclarecedor de conflitos, tradutor de emoções. Às vezes exagera, mas não é brincadeira criar um pacto com dezenas e dezenas de milhões de ouvintes/espectadores.

Quando vejo Dunga manter um postura reativa e meio sarcástica com a imprensa imagino que ele deva ter seus motivos, falam de abusos, de privilégios e outras justificativas para essa atitude mas ainda assim gostaria de vê-lo levando em conta esse contexto histórico.

E essa realidade indissolúvel: Seleção – imprensa – nós. Pra seleção a imprensa é um pouco nós, pra nós a imprensa é nosso alimento de seleção. Bem ou mal aquele repórter, por mais babaca que seja, é meu representante, é nóis na fita, mano.

Afinal que merda é essa de ficar aqui torcendo, festejando, me emocionando com algo do qual não participo?

Bem, pessoalmente já fui mais pessimista, mas pra bolinha que neguinho tá jogando, essa galerinha aí deve dar conta. Mesmo que inteligência não seja o forte.

Pras crianças: Pegadinha
Responda rápido:
Dunga se acha um mestre?
Dunga é um cara dengoso?
Por que Dunga vive Zangado?
Não esta na hora de Dunga acordar dessa soneca?
Será que o time do Dunga vai nos fazer feliz?
Não está faltando alguém nesse time?
(resposta na próxima Bola de Cristal)


Jornalista e técnico da Seleção João Saldanha virou lenda

TEMPO IMPRODUTIVO.



Terminada a primeira rodada da copa do mundo de 2010 fico pensando sobre o que esperavam os jornalistas esportivos. Vejo as mesas redundantes e os gritos por futebol arte, por alegria de jogar, por jogos emocionantes, sem pragmatismo. Estes são os verdadeiros primatas pragmatas! Alguém disse por aí que uma luta de boxe nunca é vencida sem emoção, nunca alguém venceu feio, ninguém pede no dia seguinte um boxe moleque, e sim um “vai lá moleque e vence essa porra”. É tudo verdade. Como é verdade que ninguém vence feio uma partida de vôlei, nunca é injusta uma partida de basquete. Mais uma vez o futebol impõe tudo aquilo que a lógica do pragmatismo eficiente não comporta. O futebol é tão lindo que é o único jogo que se pode vencer jogando feio. Pode-se transformar 89 minutos em algo desastroso, improdutivo, inepto e em 1 minuto liquidar a fatura com um chute torto de fora da área que resvalou em alguém. A preguiça de um toque pro lado, o tempo que passa sem que nada aconteça pode ganhar um jogo, um campeonato, um mundial! Essa é a lição italiana que no seu caos interno desestabiliza a cadência da partida. Assim é o Brasil em seus grandes dias, quando volta bola da intermediária de ataque pra de defesa como se dissesse: “Calma! Vamos começar tudo de novo pra ver se sai mais divertido agora!”. Os shows de Garrincha quando driblava o goleiro e na cara do gol escancarado voltava pra driblar todo mundo de novo. Pra que o gol? O futebol é improdutivo, isso os pragmatas não entendem! Não digo fora das quatro linhas com seus bilhões ferozes e seus jogadores coisificados por grandes marcas. Digo dentro do gramado no tempo que não se lê! O basquete é Chronos, o futebol é Aeon. Ninguém aqui busca a contagem regressiva, da morte, que busca a imparcialidade do zero. O tempo no futebol não para nunca, nos seus 90 minutos partidos em dois que podem ser acrescidos de um pouquinho mais dependendo de estranhos fatores imponderáveis! O futebol é o único que pode ser feio, preguiçoso, história mal contada, como uma boa literatura deve ser. Os colonizadores, quando chegaram nas Américas, acharam que o índio era preguiçoso porque não produzia com eficiência! Hoje estamos aí sufocados pelo lixo que eficientemente produzimos e agora não podemos engolir. A improdutividade, a preguiça, é isso que vai salvar o mundo. Precisamos desse freio pra descansar o planeta de tanto fast forward. Precisamos mesmo é desse toque pro lado do half enquanto o center forward descansa sobre a grama, com as mãos, que não pode usar no jogo, sabiamente apoiadas nas cadeiras. Eu na minha cadeira contra os pragmatas de plantão.

Ai que preguiça!


7D.

19 de jun de 2010

Bola de Cristal N°2 (Por Rô)

Em 58 passava a maior parte do tempo as voltas com música e, naturalmente, futebol. Nunca fui muito técnico, mas marcava bem, chutava muito forte, como se diz hoje, tinha ótima leitura do jogo o que me levava sempre a ser capitão dos times ou equivalente. Uma honra, já que esse tipo de privilégio costuma ser dos melhores tecnicamente, dos cara que não podem sair do time. Fui reprovado na escola em quase todas as matérias, tirando música e matemática, adorava álgebra.

Naquela tarde ensolarada de junho depois da praia e de um belo almoço, fiquei ouvindo meu mestre, Nat K. Cole. Reinava calma absoluta, ou quase, no condomínio dos jornalistas no Leblon, onde eu morava.

Brasil e Áustria, no estadinho de Uddevala, na Suécia.

Nas Rádios, vibrantes como sempre, locutores lendários disputavam a audiência. Meu predileto na época era Oduwaldo Cozzi, lembro que um dos patrocinadores das transmissões era um político, tido como das mais corruptos, Ademar de Barros;

Para frente e para o Alto, o Brasil com Ademar! O slogan fascista animava a torcida.

O jogo começa sem graça, mas o domínio brasileiro é completo. O desenho tático mantinha 3 zagueiros bem atrás, um quarto zagueiro, roubado aos meias que a princípio fazia a cabeça de área, depois foi-se fixando como central pela esquerda. Todos com funções expressamente defensivas, nada de subir pra cabecear em córner. Dois meias de ligação responsáveis por armar os ataques, como os levantadores no vôlei. E os 4 atacantes, dois pontas, o centro-avante, necessariamente, valente e lutador além de oportunista, e um ponta de lança, mais habilidoso e também responsável pelos gols da equipe.

A Áustria era uma grande seleção. Tinha ido muito bem em 54, melhor do que nós. Muita gente acreditava que não passaríamos pras oitavas. Estávamos no grupo da morte junto com a Rússia, uma das favoritas, campeã olímpica dois anos antes e a sempre temida Inglaterra, ainda abalada com o desastre de avião que vitimou vários jogadores do Manchester United e da seleção.

Pimba! Gol de Mazola!

Mesmo preocupado em não se machucar, o centro-avante com contrato assinado com um time italiano, não teve dificuldade em abrir o placar ainda no primeiro tempo.

Começa o segundo e vem logo o lance que hoje podemos ver como prenúncio de bons ventos pro nosso time no torneio. O célebre gol de Nilton Santos, que sai da defesa driblando todo mundo até a área austríaca e, com um leve toque sobre o goleiro, faz dois a zero praticamente decidindo a fatura. No finzinho, Mazola ainda mete o terceiro.

Estréia de luxo.

Se na bola a vitória foi indiscutível e animadora, na pancadaria nos demos pior. Saímos com duas baixas: Dida e Dino Sani.

E o próximo jogo prometia mais dureza: a Inglaterra.

Desci pra comemorar a vitória com a galerinha do prédio. Nada de gritos, fogos nem batucadas. Atravessamos a rua e fomos ali no outro quarteirão tomar sorvete no entreposto da Kibon e curtir aquele fim de tarde gostoso sentindo cheirinho de mar

Cozzi, grande radialista, meu locutor preferido, manteve no ar um programa semanal de TV mostrando todo trabalho feito pela CBD antes da Copa de 58. Antenado (com trocadilho).

Sobre os goleiros e as aglomerações (por 7A)


Me lembro que a primeira frase que ouvi foi: “O gol é o melhor psicanalista do atacante”......quer dizer, antes do divã já tinham inventado as redes para o jogador de futebol se auto-analisar. Quer dizer, o gol redime tudo e é a auto-representação ideal de toda a cirurgia do jogo, será? O gol como um ato cirúrgico? Uma primavera forçada? Será mesmo que antes de tudo existia o gol? Tudo bem, me cansei de procurar a genealogia do gol, prefiro os goleiros com suas aparências desoladas, desterradas, pássaros sem asas. Me lembro do goleiro Gianluca Pagliuca beijando solitariamente a sua trave. A grande verdade é que o que mais me perturba no futebol são as aglomerações. Se o Fla-Flu inventou as multidões, o que será que as une e as transforma em torcidas prontas para serem esquadrinhadas? Qual o esboço do espelho de sal? Por que gritam os vencedores? Será que existe mesmo esta pátria de chuteiras, ou serão somente brilhos esparsos? Que território mágico pode se chamar de ilha flutuante Brasil? Território-planeta chamado de país? Pindorama? Desconfio que atualmente haja mais metafísica nos estádios do que nas avenidas. Eu gosto mesmo é do mistério dos goleiros, eles também não aprenderam a voar.

18 de jun de 2010

Homenagem a José Saramago




Saramago era um apaixonado por futebol. Depois de uma derrota da seleção portuguesa ele disse:
"O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas,
O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas."

E a morte, será que é?!

Valeu portuga!
Aquele abraço do Evangelho segundo os Sete Novos


16 de jun de 2010

Bola de Cristal N°1 (por Rô)

Bola de Cristal

A pré- adolescência costuma ser uma fase mágica. Muitas descobertas e primeiros passos rumo a si mesmo.

Sou alguém, caralho!

O futebol nessa época faz todo sentido. Eu pertenço!Antes de ser brasileiro o cara é flamengo, é Grêmio, é santista, é Remo, é Bahia. Ser brasileiro é uma decorrência.

Caralho, existe um país!

É o começo do chamado “meu tempo”. No meu, havia Nat King Colle , João Gilberto, Juca Chaves, Wandinha vagamente, mulata bossa nova que entrou no Huli guli e só dava ela. Gene Kely sempre lindo, lutando espada no cine Metro, Oscarito grande Otelo, futebol de praia, sundae no Bob’s e a descoberta da sexualidade e da poesia.
E a seleção brasileira.

Havia uma década os canarinhos tomavam porrada, desde que Barbosa não conseguiu defender o chute uruguaio que nos tirou a copa de 50. Andei pesquisando e vi que as vitórias são muito mais numerosas que derrotas e empates, mas tomar seis gols da Bélgica, 5 da Holanda, 4 da Hungria e outros fiascos, permanecem mais vivamente na memória que belas vitórias.

Concluo que mesmo quando éramos vira-latas, como dizia o grande Nelson, já não suportávamos derrotas da seleção. Porra, derrotas do BRASIL.

Em 58 fomos pra Suécia esperançosos mas escaldados. Não tínhamos um time, muito menos um técnico (Vicente Feola,o Gordo, era dirigente do São Paulo com breve passagem como técnico). Mas pela primeira vez formou-se uma comissão técnica pra despersonalizar as decisões técnicas. Foi a única que vi funcionar como previsto. O que vejo hoje é um time de apoio ao treinador não uma equipe democrática.
O time foi se formando ao longo da competição. O cibernético dr. Carvalhaes, psi de plantão da seleção, recomendava evitar jogadores negros, despreparados para conquistas. Por isso gênios como Djalma Santos, canhoteiro e o próprio Zizinho, o mestre Ziza, ficaram de fora.


(em pé: De Sordi, Dino, Belini, Nilton, Orlando e Gilmar; agachados: Joel, Didi, Mazola, Dida e Zagalo)

Gilmar, De sordi e Belini. A zaga poderia ser italiana. Dino Sani , outro carcamano, e os brasileirinhos (brancos) Orlando Pessanha e Nilton Santos, completavam a defesa.
No ataque o leporino Joel, ponta do flamengo, Mazola, já negociado com a Itália, Dida, segundo maior artilheiro da história do mengo e Zagalo, um estreante, muito inferior tecnicamente ao lendário canhoteiro, uma espécie de garrincha pela esquerda.

E Didi, o inventor da folha seca (uma espécie de saque balanceado no vôlei), o grande cérebro do time. Preciso nos passes, mesmo nos de 40, 50 metros; na armação de todas as ações de ofensivas , meia de ligação por excelência.
Negro, casado com uma divorciada, um constrangimento na época.

Amanhã: (no caso ontem desculpe o atraso) nota dos 7Novos.

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor.

Os Sete Novos convidam!

Futebol são 11 contra 11, nos somos 7 e sempre faltam 4 pra completar o time. Por isso grandes convidados são nossa saída para tentar contornar possíveis maracanaços literários. Ronaldo Tapajós, o cacique Rô, é nosso cronista convidado. Ele rabiscará aqui suas visões na coluna "Bola de Cristal" (nome visionário como o daquele espírita que por psicografar livros indianistas chamou-se José de Alenkardec).

Rô é um dos nossos! Mais um cronista neste Brasil onde o surrealismo não deu certo porque afinal de contas já é surrealista em si, e por isso é um país de cronistas. Seja Bem-vindo Rô! O pontapé inicial está dado nesta "Bola de Cristal".

Valeuzão a presença!

14 de jun de 2010

1998, pra quem não gosta

No intervalo da final da copa de 1998, quando Zidane já havia feito dois gols contra o Brasil, resolvi sei lá porque motivo abandonar o lugar onde estava assistindo a partida e saí pela rua até encontrar a casa de um amigo para assistir o tristíssimo segundo tempo daquele certame traumático. Durante a caminhada de mais ou menos 1km só havia eu nas ruas. Nenhuma pessoa, nenhum carro, nem cachorro. Era o barulho dos meus passos e da voz do Galvão Bueno vindo das janelas dos apartamentos cariocas. O silêncio que se fazia nas ruas melancólicas do Rio de Janeiro daquela tarde do dia 12de julho de 1998 era preenchido pelo barulho do Stade de France a milhares de quilômetros de distância. Mesmo na ausência, no silêncio da alegria, no silêncio cageano, a torcida brasileira era grandiloqüente.




7M

11 de jun de 2010

Ke Nako: Chegou a hora!

A Copa do Mundo 2010 começa hoje e a cobertura delirante só esquenta!
Iemanjá daqui e de lá em clima de Maelstrom!!!
Ela marca o gol que Diana Ross perdeu em 1994!
Com vocês a Copa!

8 de jun de 2010

5 de jun de 2010

Noites africanas (por 7A)




Se é para África dominar o mundo que seja pelo bom propósito de Michael Jackson cantando o fim da segregação racial em “Black or White”, ou pela lírica pujante dos nova-iorquinos do The Last Poets. No hip-hop o que me incomoda são as ausências de metáforas e ambigüidades, muito diferente do rap proveniente da sigla rythm and poetry (poesia ritmada).

Falsas noites são criadas em estúdios durante o dia. Não seria essa a ambigüidade mágica que nos interessa? Sou pela delicadeza dos índios com uma bola (símbolo do real), sou pela magia no cinema e pelo cinema na magia, sou pelas noites africanas.

1 de jun de 2010

FUTEBOL





“O gol é apenas um detalhe”

C.A. Parreira



O futebol é a grandiosidade das pequenas coisas, o não acontecimento, a suspensão. É um pé que passa por cima da bola, é a bola que beija a trave, como em uma reverência. O tempo improdutivo, o toque pro lado, segurar o relógio, dilatar e comprimir os minutos. É o atacante que se distrai porque achou no campo uma correntinha. O uivo louco da torcida. São as cores, os sons, a invenção, a recriação! Fanopéia, melopéia, logopéia. É mais cada ataque e cada bola que na entra do que a banalidade da apoteose do gol!