16 de out. de 2007

mensagem aos poetas da guerra ( por 7A)

A guerra em geral me parece um efeito poético. As pessoas se julgam obrigadas a bater-se por uma qualquer mesquinha posse e não reparam que o espírito romântico as excita a aniquilarem as inúteis maldades através de si próprias. Elas levantam as armas pela Poesia e ambos os exércitos seguem uma bandeira invisível. Na guerra movem-se as águas primeiras. Novos elementos do Mundo devem nascer. A verdadeira guerra é a guerra religiosa; ela corre direta ao declínio, e a demência do homem se apresenta na sua forma completa. Muitas guerras, especialmente as que nascem do ódio nacional, pertencem a esta classe e são autêntica Poesia. Aqui estão os verdadeiros heróis, os mais nobres poetas, nada mais que involuntárias forças universais penetradas de Poesia. Um poeta que fosse herói de guerra, simultaneamente, seria já um enviado divino, mas a nossa poesia não está à altura da sua representação. (Novalis)

Os poetas da guerra, Los Almos ecoa em algum espírito romântico de Novalis ao New México. Bandeiras invisíveis ajudarão a raiar o dia
e já não importa que mundo irá nascer,
já não importa em que pulso se irá pulsar,
em que sol de plástico irá caber?
Já pouco importa.
(cada herói flutua)

Faça como aconselha aquela música dos Smashing Pumpkins:
Feche os olhos para ver a poeira dos anjos.

O unicórnio bestial do Apocalipse virá em um versinho dançante e hipnótico de Puff Daddy e nada mais.
( Santa Fé é aqui; nesse bar, nessa calçada)

Mas e teu museu de radiação?
Estados Unidos da Vertigem.
Mas e tuas chuvas de silêncio?
Estados Unidos do Tédio.
Estados Unidos da Ilusão.

Os poetas da guerra serão os únicos possíveis nesse imenso poema talhado no céu aberto,

de Novalis ao New México, das granadas a cicuta;
torcemos todos.

Caminhamos.
A poeira dos anjos é nossa hóstia contra a imanência da televisão.


7A.

15 de out. de 2007

BRAZILIAN DREAM

Preston Woolen e Worda Chandler trabalham como atendentes no Cow Palace-Restaurant em Shelbyville, Indiana. O jovem casal sonha em ganhar a vida no Brasil, a terra das oportunidades, mas terão que adiar seus planos.

7M

NUTRICIONISTAS AMERICANOS

“Nutricionistas americanos defendem McDonalds para crianças inapetentes” era a manchete de um jornal que jorrava delirantes números transgênicos de gordura saturada vindos de uma universidade na Califórnia. Enquanto isso no centro-oeste da potência caminhava por Milwaukee - Wisconsin - um pequeno inapetente com seu jornal-manchete-guia debaixo do braço. No seu décimo terceiro McDonalds da semana, ali na interseção da E. Potter Avenue com Kinnickinnic, o pequeno inapetente triturou seu vigésimo segundo BicMac do mês. Em seu sangue começava a pulsar uma antiga canção Menominee ativada pelo excesso de gordura trans. naqueles genes indígenas adormecidos! Entre palavras tribais e um inglês de convulsiva língua enrolada espinhentos funcionários do estabelecimento observavam com temor àquele ritual xamânico da criança inapetente que verborrajava a profecia do maior shopping indígena dos Estados Unidos da América! THE KENOSHA PROJECT! Urrava o pequeno lobo das neves do Wisconsin! Urrava dominado pelo espírito dos ancestrais trazido à tona pelos números transgênicos saturados da manchete do jornal! Milwaukee parou ouvindo os gritos inumanos da profecia Menominee... Os espíritos antigos estavam libertos pelas mãos de Ronald Mcdonalds! Uma legião de índios com nariz de palhaço vestidos de vermelho e amarelo construiriam o Shopping Nação Menominee! Eram os urros de uma nova era! ... Mas toda nova era pode ser abafada com um golpe de mestre da C.I.A.
“Criança vestindo penacho indígena é encontrada com 13 BigMacs não digeridos no estômago às margens do lago Michigan” era a manchete de um jornal sensacionalista numa manhã de Milwaukee...
7D.

10 de out. de 2007

O tempo (para um encontro em Diadema com Roberto Piva, Afonso Henriques e Cláudio Willer, outubro de 2007). (7A)

O tempo profundo da terra,
decaimentos radioativos,
multas altíssimas.

Encontrar Foucault em um coma poético de qualquer sarjeta do Baixo Leblon,
Clarissa foi minha Nadja nos meses de julho e agosto.
(Nadja me roubou todos os subterrâneos de Bakunin).
Compassos do parafuso circular,
big bangs nos espirais das Teleilusões.
(me lembro de meu tio dizendo que os dias estão cada vez mais curtos, daqui a pouco terão 22, 21 horas somente, finalmente. Será que nenhum corvo nos salva?).

O tempo do amor vai sendo marcado pela decomposição da rocha,
O coral dos dinossauros tristes só cresce durante o dia.
Lâminas claríssimas nos confundem,
Depositamos nossa lama na tábua daquele satélite.

Dentro do Segredo Glacial de uma rave em Santa Cecília,
as sombras dos ponteiros fraturados.
Nosso foco flutuante.
Beijo que vem grudado em um iceberg,
as estradas xamânicas de Jabaquara.

(quando chegamos Roberto Piva falava de robôs pederastas e como Isaac Asimov estava errado. Cláudio Willer nos apresentou a bela geologia da sintonia das nuvens).

Prédios de montanhas,
continentes colidem,
o encaixe já se abriu,
Maiakovski previu a obliquidade das almas.
A lua negra do tempo,
a morte daquele oceano é o pulsar deste;
os óculos do planeta se perdem na bruma do pulsar dessas galáxias.
Em quantos universos cabem?
enquanto universos cabem.

Nadja e Breton, Oswald e Tarsila, o grande Big Bang.

Estrelas mortas nos guiam,
o polvo selvagem nos mostra suas sombras,
Ruína de nuvens,
Ilhas de tabuleiros,
leites de sangue,
leites de sangue.

Continentes colidem,
Nenhuma tatuagem do sol.

Três astronautas caminham depois do escuro.

8 de out. de 2007

PREFÁCIO PARA ANA C.

Olá Ana! Li seu livro novo com prazer. Prazer, espanto, dor, emoção, agridoce, saúde, aromas... e tantos outros sentimentos que nos desperta a poesia. A primeira coisa que queria comentar é o título, vi as opções que você me enviou: "Caramelos de Saudade" e "A ponto de partir" (que é um verso antigo seu) e o longo título "Olho por muito tempo o corpo de um poema até perder de vista o que não seja corpo", que se não me engano é verso de um outro poema do Cenas de Abril. E que é o que eu mais gosto porque é menos ingênuo que o primeiro, menos mórbido que o segundo (eu que já sei o seu futuro) e ainda me lembra o play the piano drunk like a percusion instrument until the fingers begin to bleed a bit, do Bukowski. Interessante buscar na sua própria obra versos antigos que possam ser títulos novos. Escolher um título é como “ancorar um navio no espaço”. A minha Macondo é o espaço como eu já te disse numa tarde dessas ali entre aquelas árvores da PUC. Mas sua poesia é mais carne, mais terra. Mais a potência física desta materialidade poética que nos é tão imaterial. E por falar em materialidade gostei da série Poesia Caminhando que fecha o livro. Esses poemas longos, de fôlego largo. Como se lidos mesmo no correr de um caminho, de uma estrada de asfalto cortando o deserto! Talvez mais férteis do que asfalto... sim muito mais férteis e fecundos! Mas gostei desse seu desafio de escrever coisas mais longas que dançam entre a prosa poética e o verso livre (livremente controlado pela sua sensibilidade poética, algo mais que a pulsação sangüínea). Acho esse o ponto alto do livro.

Tenho lembrado muito de você por causa do Kerouac. Estou lendo Os Subterrâneos e ouvindo muito aquele disco The Jazz of The Beat Generation! Quem me passou foi o Mariano. Você que leu tanto Kerouac e até dialogou com ele naquele Na outra noite no meio-fio, Dr. Sax e tal. Por falar no Mariano lembrei do Augusto e de uma visita que fizemos a casa do Armando onde lembramos muito de você. Estavam lá também a Bruna (que você conhece muito bem!) e a Alice Sant´Anna uma poeta que você tem que conhecer! Ela toca até numa banda chamada Os Subterrâneos, não sei se é por causa do Kerouac. Mas podia ser. E por falar em tudo isso pensei que o prefácio do seu livro poderia ser esse mail que te envio. Assim como fez o próprio Augusto com o mail do Zé Celso na orelha do livro dele. Pense e me responda quando quiser e puder. Aguardo ansioso!!!

Heidrun, Paulo Brito, Helô e meu tio Afonso mandam beijos. Manda um beijo pro Cacaso! Ah! Encontrei com o Tite no jockey outro dia! Perdemos um dinheiro quadrifetamente delicioso numa tarde divertida!

Muitas Saudades!

7D.

4 de out. de 2007

Sonhei com Ana Cristina César

Sonhei com Ana Cristina César. Ela estava ali sentada naquela roda com meus amigos em frente a uma entrada de garagem numa rua sem saída do Leblon. Ana C. ali como eu não a conheci. Doce e calma com aquele olhar magro de lentes que engoliam o mundo. Falávamos sobre seu próximo livro... “Claro que eu te escrevo um prefácio”... Ela ri, se levanta, vai. Antes da esquina me diz... “O mais triste não é a morte, é conhecer alguém no passado já sabendo do seu futuro”... “Eu só te conheci nos sonhos”... Uma parede de janelas de banheiros se ergue no entardecer!

7D.

2 de out. de 2007

os ingênuos (7A)

you´re the murder in my world dressing coffins for the souls
I´ve left to die,
drinking mercury to the mistery
of all that you should ever seek to find.
In you I see dirty In you I count stars
In you I taste god In you I crash cars.
(Billy Corgan)


mesmo através do turvo e estilhaçado espelho das feras,
mesmo através dos mapas litúrgicos,
mesmo através das igrejas teleguiadas que me peseguem,
qual será o novo desastre?

todo índice é símbolo, tudo é artifício, tudo é caverna.

em todo esse tempo o meu cinema era você.

um dilúvio de cartões postais,
me manda uma mensagem de batom para naufrágio,
sete segundos de radiação, ´

só os ingênuos não viram
esse colírio de óleo diesel,

puro aborto luminoso,

a rainha de sabá já chegou.

uma mulher acaba de parir um peixe
rompendo a escuridão de todos os túneis do metrô.