No futebol o número é burro, a letra é um garrancho, a palavra tem erros de tipografia, ou melhor, tudo certo como 2 e 2 são 5. Outro dia numa pelada em Mesquita o filho do Waldir, que pinta o cabelo de acaju e apita todas as decisões por lá, levou um software chamado Futsync, que divide o campo de jogo em 12 quadrantes, marca quantos segundos cada jogador ficou com a bola, quantos passes, quantos toques, dribles, cruzamentos chutes, cambalhotas, firulas, quebras de asa e currupios; pra dizer no final quem era o melhor da partida e merecia o engradado de cerveja. Mas olhando o jogo e olhando o software todo mundo viu que ele é burro. Aqui não estamos na lógica das 370 jardas percorridas da conquista territorial do American Football, nem nas assistências decisivas daquele campinho de dança de salão do basquete. Se o Futsync vê naquela pelada de várzea o meio campista Pudim caminhando certinho com a bola, rodando feito um peão e passando com eficiência pro ponteiro Catatau que descia na direita, super bem marcado pelo grande beque Marcão, tudo certo pro software. Mas o campo de futebol varia entre 45M a 90M de largura por 90M a 120M de comprimento. Não! Mais do que isso. O campo de futebol é o retângulo do infinito das possibilidades. Um circo quadrificado cercado por meias-luas por todos os cantos com a feminina e imprevisível bola no centro do mundo. Tudo isso pra dizer que o software não vê a subida lá pela esquerda do inconstante Canhoteiro, envergando a camisa surrada do Coração Cansado, que na realidade foi quem recebeu a bola do Pudim e, sem deixar a redonda quicar, acertou um balaço no ângulo. O goleiro do Siri Valente ficou congelado até hoje debaixo daquelas traves do campinho de grama cortada pelo dente do pangaré manco da vizinhança. No fim a torcida do Coração Cansado vibrava com aquele 1x0 imortal. O Software deu o prêmio de melhor do jogo pra um outro sujeito que ficou 7 minutos e 48 segundos com a bola, deu 97 passes e só errou 3, chutou 19 vezes a gol, deu 17 assistências. O Canhoteiro, que tinha uma perna maior do que a outra é herói lá em Mesquita até hoje. Ele passou o jogo todo onde fazia sombra às 11 da manhã, só deu um toque na bola, com ela no ar, aquele chute dura até agora, há mais de 700 milhões de segundos nos softwares químicos dos HDs biológicos que viram a vitória do imponderável.
Milhares de vidas vazias são iluminadas pelo circo simbólico da bola. Seja muitíssimo bem-vindo ao grande oráculo das multidões. O Eros futebolístico abre um sorriso em puro ato de gratuidade estrutural. Aqui está dada a história imemorial do futebol, maquete viva da hipnose coletiva. A bola, placenta celeste, musa para os pés exposta com suas vísceras geométricas, diamante sem furo, bola-sol, esfera-lua. O observador observa a dor do diagnóstico uspiano. O filho do vento encontra o filho do caos.
Em sua tele-onisciência Pelé separa arte e vida. Pelé calado é certamente um "poeta". Sua entidade dupla e mediúnica “Pelé” sabe muito bem distinguir os fatos dos acontecimentos. Aplausos para Edson Arantes do desfalecimento. O fenomenal Ronaldo deu o nome do filho em homenagem ao palhaço do Mc Donald’s. Roberto Carlos, o cortesão decadente arruma sua meia. Aplausos para eles.Este azougue mercurial é vendido como rito em pay per view com replays celestes expostos no ar. Pernas eloqüentes tocam o lado escuro das luas de mármore no placar sagrado das galáxias. Jogadores deveriam usar máscaras, identidades nuas, só assim conseguiriam reger oceanos.
Índios e astronautas da aurora aplaudem a batalha recíproca do futebol, competição televisiva pela ração diária de inocência, Graal moderno com suas quatro linhas lúdicas expostas à céu aberto. Coliseu cavando buracos na gravidade dos instantâneos de Pelé. Entre a dádiva e o veneno. Esperamos pelo nosso Maracanã metafísico. Os espelhos invertidos do Fla-Flu são ensaios de luminosidade noturna. O gol rege os cataclismos nesta gramática das chuteiras semiológicas com seus pulmões de travas. Esta é a caça recíproca dos deuses que dançam; deuses publicitários de si mesmos. Este é o improvável balé das luminárias babilônicas. O Olímpio trágico do Maracanã é o nosso laboratório ancestral. Rola a esfera na terra sintética do espetáculo, órbita em permanente assunção ao rés do chão.
Medusas de gasolina abrigam este transe terreno luminar. O goleiro, sagrado e maldito, mãe do galináceo na vulva etérea das balizas, mãe do marco zero, mãe da meta virginal, deflorado paraíso. Balizas nascem do gol como telas contíguas a qualquer escala do corpo humano, rodeadas com eróticas redes. Anjos famigerados jogam vídeo-game num festim telúrico. O vídeo-game é a mais perfeita anestesia da cultura do simulacro. Gols concretos e elegantes são depositados pela esfera etérea. E segue o baile do destino que se decide em ato; nas cinzas da grama onírica. Medita o goleiro-engenheiro na geometria de seus gestos econômicos. A vertigem do gol sempre abre uma fresta no espaço, todo gol transborda por ser irreversível.
A medieva lunar é bem diferente da bola de gelo da deusa Nike? “Tudo que é belo sempre aconteceu na solitude; nada aconteceu em uma multidão.” Fronteiras são transformadas em ato no limite do suspense, um mar humano comemora. Macunaíma adivinhou Garrincha. Dorival Caymmi [o Macunaíma do dendê, técnico perito em matéria de ócio] aplaude tudo junto com todos os filósofos da praia. O circulo central imita o sol, a meia-lua é seu contraposto. Performances visuais são depositadas nas retinas dos bonecos de mola, hermeneutas do transe, acrobatas da navalha desta obra aberta.
Mas quem será imantado pelo mito? O sagrado do placar só será entregue à eternidade pelo derradeiro apito do juiz. As logomarcas dos demiurgos estarão escritas nas bolas translúcidas de linhas imaginárias. Uma musa pelada em branca disponibilizada para o nada. O tédio de Romário mimetizará a caça, transmutará caça e caçador; aplausos para o nosso sacerdote de asas quebradas. As traves são planeta grávido de gols, corpos telúricos sexuados, viscerados de noite.
Orquestra elástica, emblema da menstruação urbana que os vídeostapes não irão mostrar. O campo daqui é um simulacro do campo de lá. Nós focais obnublados por uma bola a enfrentar o limite real do chão. A morte simbólica do adversário é somente um passo rumo ao troféu. Assim, cada gol servirá de oferenda contra a deterioração limítrofe do sol. O eixo de cada estádio assim se ligará às dimensões subterrâneas do céu. Pelé quer fertilizar o sol.
A menos de dois meses para o início da copa do mundo na África do Sul um jornalista brasileiro foi assaltado por nove homens armados em Johanesburgo, uma das cidades sede. Nove homens armados desmontam qualquer ser humano e com o jornalista não foi diferente. O sujeito ficou transtornado dizendo que o país não tinha condição de realizar o mundial. Fiquei pensando onde será que ele vive no Brasil. Provavelmente em Borá onde moram 700 pessoas. Porque se nove homens armados impossibilitam um país de organizar uma copa do mundo imagina a situação do Rio de Janeiro para a olimpíada e a copa. Mas de tudo que o jornalista falou, o que ficou na minha cabeça foi:
“Para os brasileiros, que acham que tudo isso é uma bobagem porque já estão acostumados com a violência das grandes cidades, um alerta: abram os dois olhos. Separados pela distância de um oceano, é difícil ter a dimensão do que foi o apartheid. Nosso único parâmetro seria a escravidão, no período colonial, que terminou 122 anos atrás. Em termos históricos, o fim do apartheid e a eleição de Nelson Mandela são eventos recentes. (...) Seria como se a princesa Isabel assinasse a Lei Áurea em 1991 e, três anos depois, o Brasil elegesse Zumbi dos Palmares como presidente. Mudança radical. Clima pesado. O clima na África do Sul é pesado, o ressentimento está no ar.”
Três coisas me impressionam aqui:
A primeira é o delírio da comparação! Mas vamos assumi-lo, imprimasse o delírio.
A segunda é como a racialização do país impõe a qualquer tensão a exigência de que ela seja uma tensão racial. Ou seja, se nove homens armados te assaltam, você é branco, eles negros, significa que isso é por causa do apartheid! Não tem nada a ver com mais nada. A raça explica o mundo! E não é a Raça Rubro Negra, ou a raça que pedem no Maracanã quando o time fraqueja. É a velha raça, daquele velho pensamento de que negro é burro, índio é preguiçoso e os brancos civilizados! Não há então mais sociedade? O que há são apenas grupos identitários que não podem conviver, interagir e se misturar? Acredito que não é assim e acho que o futebol, nossa alegria, é a prova dos nove.
A terceira coisa, mais lúdica, é a transposição de tempos, através do rio São Francisco, que colocam Zumbi e Princesa Isabel em 1991 no Brasil. A princesa, agora vivendo do laudêmio, mendigando 2,5% das riquezas da cidade de Petrópolis, fã da Madonna. A princesa Isabel sapeca a assinatura na lei áurea, liberta os escravos e o país sai em festa! Zumbi desfila em carro aberto e dois anos depois é enfaixado como presidente do Brasil. Sem os nossos negões livres nas décadas de 60 e 70 o Brasil não ganhou nenhuma copa. A liberdade das misturas eleva a expectativa para 1994 que se aproxima! Eu quero ver quando Zumbi chegar (na grande área) o que vai acontecer! Romário é o Zumbi da grande área!
Já seria carnavalesco, mas ainda bem que não foi assim. Que tudo aconteceu bem antes lá em 1888, ainda que bem tarde. Que bom que o Zé Pereira chegou de caravela preguntou pro guarani se ele era cristão e ele disse que não e a onça grunhiu na mata e o negro tomou a palavra e disse que sim seguido do Canhem Babá Cum Cum! E fizeram o carnaval!
Tudo isso me faz lembrar o episódio da Briosa, a Portuguesa Santista, em sua excursão pela África nos anos 1950. Na época o clima era mesmo pesado e a Briosa vinha vitoriosa de Angola, havia vencido todos os jogos. No aeroporto o clima já esquentou, quase barraram os negões da Portuguesa de entrarem no país. (Os negões da Portuguesa no bom sentido, claro. E não que no mal sentido tenha problema. Afinal tem muita portuguesa que adora um negão!). Mas enfim, para evitar qualquer complicação diplomática maior, um representante da embaixada do Brasil foi acompanhar os jogos do time. Já no primeiro confronto o caldo entornou. Não havia uma federação de futebol unificada naquele momento e um representante da federação branca disse que ali brancos jogavam contra brancos e pretos contra pretos. Imagina o que não aconteceu nesse vestiário. Todos os jogadores da Briosa partiram pra cima dizendo que aquilo era UM time de futebol e que se não entrasse todo mundo não entrava ninguém, no que foi prontamente apoiado pelo representante da embaixada brasileira. Por fim o jogo não aconteceu e a crise diplomática deflagrada fez o presidente Juscelino Kubitschek se pronunciar oficialmente contra o apartheid, transformando o Brasil no primeiro país fora da África fazê-lo! Nos anos 60 a África do Sul foi banida dos jogos da FIFA, retornando apenas em 1993, com Nelson Rodrigues Mandela, depois do fim do Apartheid. Vale lembrar que a Portuguesa Santista voltou invicta de sua campanha Africana, ganhando a fita azul da FIFA, prêmio dado aos times que venciam todas em suas excursões internacionais. A Briosa voltou invicta no campo e no coração!
O que fica aqui são estas duas posições distintas de pensamento acerca da raça. Uma que acredita na sociedade fractada dos guetos multiculturalistas. Outra que acredita que a mistura é a saída. E por fim o futebol como momento máximo de congregação acima de qualquer racialismo, partidarismo ou ideologia. Se não é assim como você explica que o Iraque, esfacelado pela ofensiva Americana, destroçado pela guerra, com sérios conflitos étnicos jogue a Copa da Ásia em 2007, com Curdos, Sunitas e Xiitas, comandados, talvez não por acaso, pelo brasileiro Jorvan Vieira, e saia campeão pela primeira vez em sua história?! Há mais coisas entre a linha do gol e o travessão do que desconfia nossa vã filosofia.
O tédio é a doença mais moderna que há. Intensa como um véu vazante, anjo exterminador vazando milagres. Michael Jackson foi o último dândi da história, andrógino anjo exterminado pela multidão anônima, sangue pisado nos estilhaços da calçada da lama. Como um continente perdido na beira da casca de um ovo, M.J se auto-implode como um encenador de si próprio, this is it.
Se Oscar Wilde declarava que uma reforma na maneira de se vestir era muito mais importante do que a reforma da religião, o exibicionismo de Michael tinha um alvo certo: a dança. Nunca mais luvas de lantejoulas prateadas e casacos de remotas purpurinas douradas, nunca mais girassóis na lapela, nunca mais. Cidades são traçadas, mas os arquitetos regurgitam gotas de nuvem.
Michael, você se perdeu no deserto de fotos envelhecidas antes do tempo, só te resta agora esta saudade do futuro, this is it. Nada te salva te salvará dos estilhaços deste instântaneo instante, desta saudade de tudo que ainda se resta para viver. Heróis ainda apodrecem no vento de carne.
Pessoas abrem seus guarda-chuvas, mas a chuva não as guarda, o veneno que assalta é um mel vazando massacre , this is it. Os pés andam sozinhos. Agora já é tarde demais para se morrer.