24 de nov de 2008

17 de nov de 2008

E pra quem não foi...

perdeu.

Mas o Portal Literal fez um "melhores momentos" do nosso 4 de novembro de 2008, quando já comemorávamos a vitória de Obama mesmo sem saber que ele tinha ganhado. Vale a pena baixar o vídeo. Macumba, Britney, Girl from Ipanema e Bovespa Fashion Week. Acesse:

http://portalliteral.terra.com.br/banco/video/amoramerica-os-sete-novos-1

12 de nov de 2008

Release Amoramérica

Nossa querida editora 7Letras, depois de muito fundir a cuca, conseguiu escrever um release sobre o nosso unreleasable livro. Acho que até agora ninguém conseguiu explicar melhor para os seres humanos do que (mais ou menos) se trata o Amoramérica. Segue o texto:
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Depois de estrear com livros individuais em 2006, Os Sete Novos lançam agora um livro escrito a sete mãos: AMORAMÉRICA. Em tempos da eleição do Obama, que além de próximo presidente dos EUA se tornou o mais novo ídolo pop, o tema não poderia estar mais em voga.

Os três poetas revisitam ícones do imaginário norte-americano (e brasileiro, e mundial): dos Kennedy a Heath Ledger, passando por Michael Jackson, Brandon Walsh e Darth Vader, do Texas a Nova York, de Kansas a Los Angeles.

Com irreverência e humor afiados, AMORAMÉRICA aposta no sincretismo cultural, Popeye e George Washington se misturam a deuses gregos e orixás, Rocinha e o Posto 9 dialogam com Califórnia e Baywatch e o Superman encontra Macunaíma. O resultado é uma espécie de samba do yankee doido.

Se apropriando do poema-slogan amor-humor de Oswald de Andrade, os três Sete escrevem sua panamericana AMORAMÉRICA do século XXI. Como já dizia Paulo Leminski poesia é prazer é um inutensílio essencial. E se Allen Ginsberg decretou The Fall of America em 1971, nós já pensamos um pouco diferente. Somos todos Americanos na grande Mátria América. Já diria Pablo Neruda em seu poema Amor América que antes dos rios arteriais veio o grande sonho púrpuro chamado América. Henry Miller já dizia que os livros que melhor compreenderam os Estados Unidos foram feitos por escritores estrangeiros. De fato, Franz Kafka, Tocqueville e Maiakóvski possuem relatos definitivos, cada um a sua maneira, sobre a grande nação norte-americana. Juntando as highways siderais de Jean Baudrillard e os outdoors mitológicos de Agrippino de Paula; aqui está: AMORAMÉRICA 2008.

Domingos Guimaraens, Mariano Marovatto e Augusto de Guimaraens Cavalcanti são os Sete Novos, coletivo poético fundado em 2006. O grupo publicou anteriormente pela 7Letras os livros A gema do sol (Domingos com orelha de Guilherme Zarvos), O primeiro vôo (Mariano com orelha de Paulo Henriques Britto) e Poemas para se ler ao meio-dia (Augusto com orelha de Zé Celso Martinez e apresentação de Heloísa Buarque de Hollanda)

11 de nov de 2008

CONTINUA A EXPLICAÇÃO DOS POEMAS DE AMOR AMÉRICA, E SEGUE O BAILE! (POR 7A)

SOY LOCO POR TI, AMERICA: Esse é meu texto mais vertiginoso, fala sobre um oráculo propagado por Henry Ford para salvar o mundo dos caboclos do espinafre guiado por um Popeye moldado por José Agrippino de Paula. Aqui há uma resistência norte-americana a aceitar a nossa visão da terra deles. Os engenheiros construíram a América e eles são inocentes. Godot entra aqui de soslaio para avisar mais uma vez que não vem.

MANHATÃ: Aqui quis me lembrar primeiramente da maneira carinhosa como Cazuza chamava Manhattan de Manhatã lembrando sua descendência indígena. Adoro esses nomes sonoros e Manhatã assim fica ainda mais linda. Caetano mesmo fez uma canção muito boa sobre Manhatã, a cunhã do dinheiro com a Estátua da Liberdade colocada como um Leviatã do amor. Manhatã definitivamente é a deusa mais imaginada do mundo, lugar em que inclusive eu morei dos dez aos treze anos. Ela é o cenário perfeito para se perguntar por que Marcel Duschamp resolveu jogar xadrez e largar os seus readymades ? Os paraísos descartáveis e mágicos do cinema nos ajudam a entender um pouco essa deusa da aglomeração, Manhatã. Se o FLA-FLU inventou a multidão como disse Nelson Rodrigues, foi por uma boa causa.

Aqui entra mais uma vez a casa de Andy Wahrol como processo mágico de móveis com gás de hélio e flutuantes e claro minha obsessão em criar santos e orixás para os norte-americanos. Um terreiro na área nobre de Nova Iorque Battery Park ao som da bossa novíssima ´´The Girl from Orange County``. The Last Poets que me refiro aqui é um grupo de poetas e músicos rap do Harlem dos anos 70 com esse nome premonitório de que os poetas seriam os novos índios dessa alta modernidade. Love ruins everything é o nome de uma música pop do escocês Lloyd Cole, ex-integrante da banda Llyod Cole and the Commotions. Outro escocês a se radicar em Nova Iorque foi David Byrne, o fundador do Talking Heads e responsável pela nova valorização de Tom Zé. Poderia também falar de David Bowie, britânico radicado em NY, mas não falei. Como se vê Manhatã é um desterro para os homens de boa cobiça. Está aqui nesse momento em cartaz o filme ´´Os Cafajestes`` de Ruy Guerra.

Na frase ´´Paranóia com brócolis`` cito Roberto Piva com a junção de dois livros seus ``20 poemas com brócolis`` e ´´Paranóia``, como se só mesmo o Piva pudesse explicar NYC. ´´The Fall of America`` é o livro de Allen Ginsberg em que ele continua a profecia de William Blake de que os Estados Unidos se auto-implodiria em duzentos anos. Para falar sobre tudo isso Lou Reed não poderia faltar, claro. Nova-iorquino e fundador do Velvet Underground o músico possui as letras mais estranhas sob fundos musicais amorosos de baladas. São baladas sangrentas as de Reed, que só são passíveis de explicáveis quando se anda pelo Guggeinheim, museu circular na beira do Central Park. O clássico Take a walk onthe wild side é inspirado em romance de Nelson Algren, e fala do submundo como poucos escritores o atingiram a até hoje.

Não me esqueço nunca de uma exposição que vi qundo tinha 17 anos no Guggeinheim dos homens da cartola de René Magritte, foi a primeira coisa que enxerguei na vida que me provocasse mistério, depois fui perseguir esse homem da cartola e o encontrar nas ilustrações de capas do Pink Floyd. Mas, voltando ao Guggeinheim, faltou falar de uma capa para uma antologia dos Beatles tirada de cima dentro do museu. Em final fantasmagórico imagino algum herói POP como Michael Jackson sobrevoando de lá pelo Central Park West para chegar até a Avenida Pindorama, lugar onde se samba rock and roll e os deuses tupiniquins são yankees também.

Esse é o lugar da Mátria dos Estados Unidos do Universo em que não se tenha hierarquia de culturas, Manhattan é Manhatã e as duas convivem bem, nenhuma cultura quer se impor ou tolerar a outra, mas apenas sobreviver. Esse é o lugar mágico, e não o da globalização, já que sabemos bem que o termo globalização só foi criado quando acabou a União Soviética, e a hegemonia norte-americana se torna global. Não mais bi-polarizada pela Guerra Fria. Manhatã pode ser a utopia realizada contra a cultura globalizada pelos EUA, o paraíso tupiniquim dentro de Nova Iorque pode ser o veneno que nos cure, por isso ainda buscamos.

ESTADOS UNIDOS DA VERTIGEM: Esse é o meu texto mais amoroso, e por isso aé mais incoerente. Coloco aqui com a provocação que vê os concretos em um paideuma surrealista, ou no mínimo fora das fronteiras épicas da poesia que se quer matemática, ou outdoor. Sou aqui pela vertigem de outdoors líricos em que se vendam anúncios que façam as pessoas se emocionarem. Se Lee Oswald (assassino de J.F. Kennedy) pudesse conversar com Oswald e devorá-lo em vez de matá-lo, como bem diz o Domingos, poderíamos ter uma visão mais satisfatória aqui. Importante ressaltar aqui o livro ´´Cidade Vertigem`` do meu tio Afonso Henriques Neto, que livremente me inspirei no título. Tentei me utilizar também da frase que Jorge Mautner me disse aqui sobre terem sido os jesuítas que criaram o samba, e que o Padre Antônio Vieira foi o primeiro tropicalista da história. Até hoje rumino sobre isso, um dia chego lá. Esperamos pelo dia em que seremos cósmicos e Flash Gordon nos faça mais sentido do que já faz.

Novamente aqui vou falar de Jean Baudrillard descrevendo a America como lugar de highways sideral, bom, esta é a visão de um francês sobre os Estados Unidos, basta falar isso. ´´Because we have visions instead of televisions`` é uma frase de um livro que o Mariano me deu quando viajou para Califórnia e é todo de poemas ideológicos sobre os imigrantes ilegais mexicanos nos EUA. Uma ironia, já que esse imenso território era dos mexicanos e foi roubado pelos yankees. Hoje eles constroem cercas elétricas para impedir contato. Me aproprio aqui da causa mexicana contra os mitos em conserva de EUÁ e desse livro que li em um clima F FOR FAKE de Orson Welles ou LOVE AND THEFT de Bob Dylan; me aproprio de informações e as utilizo no meu jogo de armar.

OS BASTIDORES ANÔNIMOS DE KANSAS CITY: Esse texto tem uma história bem engraçada porque é uma paródia a Edmund White, biógrafo norte-americano de Rimbaud, Jean Genet e Marcel Proust. O escritor gay, na lógica multiculturalista de seu livro The Joy of Gay sex, residente em Paris onde escreveu um guia da capital francesa em que ele se descreve como um flâneur na cidade, e desenvolve uma imagem altamente mitificada desta. Esse texto, portanto, satiriza e homenageia esse guia sentimental de Paris de Edmund White, como se o Kansas City fosse muito mais cosmopolita do que qualquer lugar do mundo, o auge do cosmopolitismo, talvez o seja. Talvez Kansas City beire a perfeição como a descrição exagerada e deslumbrada sobre Paris de Edmund White, esse ótimo biógrafo e romancista, mas que infelizmente é natural do Ohio. Ele nao enxerga que as Kansas Hell Fighters podem ser tão existencialistas quanto as francesas do Café Mondrian. E por que não ?

Termino o texto desenvolvendo um diálogo fantástico entre o surrealista francês Paul Valery e Jack Kerouac em plena Kansas City, já que em On the Road Kerouac chega até ao Kansas e a descreve como lugar em que o amanhecer é ilusionista e alaranjado. Bob Dylan com seu Jokerman entra ali para mediar o diálogo. ´´Uma mulher acaba de parir um dinossauro`` é uma imagem do primeiro filme de David Lynch, o Eraser Head, em que essa cena insólita realmente acontece. É bom lembrar por último que Kansas City, também, não é uma cidade comum, já que se encontra fundida à sua vizinha homônima localizada no estado do Missouri, isso é seu território se funde em dois Estados e é um amálgama de alguma coisa nova.

10 de nov de 2008

EXPLICAÇÃO (POR 7A)

PARA HAROLDO DE CAMPOS E MAMAE MENINHA DE NEW HAMPSHIRE: Nesse texto estou pensando em como os Concretos influenciaram mais a Tropicália, como em Bat Macumba e no disco que Caetano Veloso fez com poemas de Augusto de Campos musicados, do que a Tropicália influenciou e amalgamou os Concretos. E se essa relação fosse ao contrário? É isso que tento trabalhar no texto, uma leitura tropicalista dos concretistas. Cito Edgar Allan Poe aqui no início para discorrer sobre um livro do Antonin Artaud chamado ´´A nostalgia do Mais``. Não seria a própria Tropicália uma ´´Nostalgia do Mais`` contra a ´´poesia menos`` dos concretistas ? Essa é só uma provocação feita aqui. Quanto a explicar algumas siglas é bom lembrar que Brigit Bardot Lanches se refere ao nome bonito da sigla B.B. Lanches, casa de sucos do Leblon aberta 24 horas em que todos Os Sete Novos vêm se reunindo já faz cinco anos, e onde temos nossas conversas insones mais insipientes. O que seria do AMORAMÉRICA se não fosse a Brigit Bardot ?

Falo sobre ´´as bíblias de banheiro`` como alegoria para uma hóstia que vi certa vez sendo vendida em supermercado, embalada e plastificada, assim Jean Baudrillard descreve em seu livro America um velório drive-trhu em que os parentes do morto podem cremá-lo sem praticamente ter que sair de seus respectivos carros; isso sim é que é um velório pós-moderno!Penso assim nas imagens ácidas em que Os Irmãos Metralha recepcionam os turistas na Disney em vez do rato decadente e imundo Mickey. A partir daí começo a me utilizar da letra de ´´Para Mano Caetano`` escrita por Lobão em resposta a ´´Rockin Raul``, em que Caetano insinua que Raul Seixas seria imperialista. Me utilizo de algumas frases de Lobão como ´´Soy loco por ti Hollywood``, e do próprio Caetano como ´´a lua é aqui no chão`` de Zera a Reza, ´´lixo baiano`` de Fora da Ordem para me opor a essa visão alienada de Raul. Falo dos yuppies da Vila Kennedy perto de Bangu, em frente a Avenida Brasil, que são muito mais interessantes do que os yuppies de Wall Street, já que a vila brasileira fica realmente localizada na intersecção entre as ruas com nomes poéticos Jardim do Éden e Praça Miami.

Cito o poema ´´A tampa`` de Baudelaire em que ele comete o sacrilégio ao comparar o céu como uma tampa de marmita, já que nesse texto tento desenvolver o mesmo elogio ácido e amoroso da modernidade presente na obra dele. Amo e critico a Tropicália (que só durou dois anos diga de passagem), assim como Lobão termina seu sermão de ´´Para Mano Caetano`` com um sonoro te amo, e Caetano por sua vez diz ODEIO na música ´´Odeio você``, como se o ódio fosse a parte mais despudorada de amor. Eu não odeio a Tropicália, mas possuo esse embate amoroso. Bom, o resto eu deixo para Roberto Carlos e Samuel Beckett fazerem cair qualquer barreira do impossível. Sempre tive a obsessão em pensar um ´´Esperando Godot`` encenado por Sylvester Stalonne como Pozzo e Arnold Schawzneger como Lucky. Fico imaginando se tal peça seria possível, já que no site oficial de Stalonne está escrito que na Escola de Arte Dramáticas de Miami Sylvester chegou a fazer Beckett, achei isso um milagre. Qual a influência de Samuel no grande monstro Rambo a se criar? E se Augusto e Haroldo de Campos dançasse em um terreiro junto com Mamãe Meninha, como fizeram os escritores modernistas na Casa de Tia Siata em descrição presente no Macunaíma de Mário.

MIAMI: Esse é uma prosa poética amorosa sobre Miami, cidade sonhada. Como seria se Jorge Mautner fosse a celebridade mais famosa da cidade, ao invés de Bono Vox? Se Sylvester Stallone é formado pela Faculdade de Artes Cênicas de Miami, fico pensando nela, somente nela, somente nela, como se possível fosse estar lá eternamente como em um carnaval ou em um desfile em celebração à existência da Flórida.

PHILADELPHIA: Depois de Miami acho importante ressaltar Philadelphia, principalmente o presente em filme homônimo contracenado por Tom Hanks e Denzel Washington. É o melhor filme que trata a questão da AIDS e é lindo o clipe em que Bruce Springsteen caminha sobre ruas chuvosas. Estive em Filadélfia e Miami quando criança, mas infelizmente não conheci seu aspecto mágico. Devo ao cinema isso e muitas coisas mais. No final da canção Bruce recita ´´aint no angel gonna greet me``, é isso aí; nenhum anjo vai nos parabenizar por nada. Deixemos os anjos para Wim Wenders. Na América os anjos são reais, estão no submundo até e nos dão bom-dia.

Amoramérica épico(t center)

Adorei o post do Augusto. Ele disse pra gente falar bastante também, vou começar. E essa idéia de explicar "faixa a faixa" os poemas também é bem boa. Mais tarde faço isso também.

De fato é um livro bastante ambíguo e difícil de sacar, if we are talking about dummies. O livro é escrito por um grupo chamado Os Sete Novos, que na verdade são três autores. O título é Amoramérica, mas não tem nada a ver com o perfume da Natura e muito menos é uma apologia mongolizante (é uma apologia mongolizante sim, mas gengis-kahnamente falando...) aos EUA.

Pra entrar na onda do livro tem que fazer mais esforço do que catar marola no final do Leblon no clima bodyboarding. Aqui é onda de 40 metros, tow-in surfing em Santa Cruz, Califórnia.

Vamos partir de Édouard Glissant, que é um negão da Martinica que eu tô adorando ler. Além do mais, negritude tá na moda, li no jornal Extra.

Glissant fala que todas as culturas atávicas vivenciaram um início literário épico. Confere? Confere. "Os grandes livros épicos fundadores da humanidade são livros que dão segurança à comunidade quanto ao seu próprio destino". Confere? Confere. Mas aí vem a parte que nos cabe:


"Tenho a impressão de que uma literatura épica nova, contemporânea, começará a despontar a partir do momento em que a totalidade-mundo começar a ser concebida como comunidade nova. Mas temos que de considerar que esse épico de uma literatura contemporânea será transmitido, ao contrário dos grandes livros fundadores das humanidades atávicas, através de uma fala multilingue 'dentro mesmo' da língua na qual for elaborado. Essa literatura épica excluirá também a necessidade de uma vítima expiatória, tal como esta aparece nos livros fundadores da humanidade atávica. A vítima e a expiação permitem excluir aquilo que não é resgatado, ou então 'universalizar' de maneira abusiva. A nova literatura épica estabelecerá relação e não exclusão".

Amoramérica funciona assim. Não universalizamos de maneira abusiva nada. Estabelecemos a relação. Não partimos de uma raiz única (alou Deleuze!), fazemos rizoma, vamos de encontro a todas as raízes. E somos contra as raízes únicas (dá pra perceber no livro que as tais culturas atávicas são os principais alvos do nosso "bom humor"...)

Épico rizomático. Mais uma das milhares de definições possíveis para esse livrinho.

A América é de todos, self-service.

7M

7 de nov de 2008

OBAMA E DEUSA EUÁ (POR 7A)


Em ´´Deusa EUÁ`` divido o espanto com o leitor ao descobrir que o nome africano para a deusa da sedução é realmente ´´Deusa EUÁ``. Por incrível que pareça o sincretismo africano já estava profetizando os Estados Unidos da América, e que seu presidente seria um dia o queniano Barack Obama. Kennedy não foi ressuscitado, mas a Mátria África veio enviada por Mamãe Menininha de New Hampshire para empossar Obama. Nesse poema também está presente a imagem forte de Elvis Presley como o primeiro a juntar música africana com música branca ao criar, ou pelo menos popularizar o Rock and Roll. Dessa maneira o mundo se sincretizou, a América de africanizou. A gênese aqui é formada por Deusa EUÁ, Elvis chegando até Obama.

PELA AMBIGUIDADE EM AMOR AMÉRICA (POR AUGUSTO DE GUIMARAENS CAVALCANTI)

Algumas pessoas têm vindo me perguntar quais as mensagens eu quero passar com AMORAMÉRICA, que elas estão ambíguas demais, então resolvi escrever esse texto aqui. Primeiro acho que tudo começa com o fato de estarmos mais perto dos Estados Unidos do que imaginamos. Não, não só pelos mitos norte-americanos que deglutimos desde criança pelo cinema e TV, mas pelo nosso horror à ambigüidade. Sim, somos o país mais positivista do mundo. Não, não é só pelo lema de nossa bandeira ; (embora seja estranho tirar o amor do ´´ordem e progresso`` como fizeram nossos republicanos); mas sim a nossa obsessão pelo realismo. Não é a toa que tanto o Simbolismo quanto o Surrealismo tenham sido sepultados vivos por aqui, Murilo Mendes e Jorge de Lima logo foram taxados de demasiados religiosos por nossos holofotes iluministas que querem iluminar, devassar tudo, nenhum cota de sombra permitida. No Brasil vamos do Parnaso direto ao Concreto, sem escalas de nuances, sem paredes movediças, sem espaços onde se respirar.

A exceção foi a contracultura, época em que a inventividade entrou pela porta da frente com a Tropicália, mas aí, logo os tropicalistas se envolveram com os concretistas por questões políticas da defesa do rock contra o nacional-popular, a defesa das vanguardas internacionais contra os Cepecistas. Essa, aliás, diga de passagem foi uma grande visão de Augusto de Campos em mostrar no ´´Balanço da Bossa`` que Roberto Carlos estava mais próximo de João Gilberto, em sua maneira de entoar o canto, do todos pensavam. Augusto mostrou também a ligação de Caetano com Oswald de Andrade. Haroldo de Campos, por sua vez, editou as Obras Completas de Oswald, obras estas que chegaram às mãos de Zé Celso Martinez Corrêa apresentando a Caetano a antropofagia pela peça Rei da Vela. No entanto, Benedito Nunes em ´´Oswald Canibal`` mostra como a antropofagia dialoga e se inspira no ´´Manifesto Canibal`` do dadaísta Franz Picabia.

Oswald estava dialogando com todas as vanguardas internacionais, e só foi re-descoberto graças a Haroldo de campos e Zé Celso Martinez. No entanto, parece estranho a leitura feita de Oswald pelos irmãos Campos como se este fosse quase que principalmente construtivista. Essa leitura soa parecida com a idealizada de Stephen Mallarmée pelo paideuma concretista como mais vanguardista do que simbolista. Por que o Simbolismo francês é considerado de vanguarda, enquanto o brasileiro é marginalizado? Acho que o Domingos pode melhor responder esta questão. No entanto, me parece estranho que Augusto de Campos tenha relegado seu belíssimo primeiro livro com flashes surrealistas ´´O rei menos o reino``, assim como fez João Cabral com sua fase onírica. Todos nós sabemos bem da briga travada pelo pernambucano contra o surrealista francês Rene Chár em seu poema ´´Anti-Char``.

No Brasil sempre essa fixação pela claridade tão intensa que cega, e de nada oblíqua, como queria Maiakovski com sua chuva oblíqua, ambígua. No caso brasileiro se valoriza o discurso pretensamente sem ruídos, embora os outdoors estejam cheios deles. Por aqui, não existe palavra mais depreciativa do que maluco ou alienado. No entanto, Augusto Comte se esquece que no mundo não há escapatória; sempre se está alienado de algo; a claridade excessiva mata. Voltando a Oswald é bom lembrar como este foi renegado da USP pelo clarividente Antônio Cândido, e se não fossem os tropicalistas estaria esquecido até hoje, como está Dante Milano e tantos outros, tantos outros.

Bom, no caso norte-americano os yankees odeiam a ambigüidade? Acho que sim. Se o norte-americano Walt Whitman criou o verso livre, e o também americano T.S.Elliot transcendeu o mecanismo da citação em ´´Wasteland``, as vanguardas européias pouco ecoaram por lá literariamente. Chegaram na contracultura beat por Allen Ginsberg e Lawrence Ferlinghetti somente em idos dos anos 50, e depois forma espraiadas nas letras das canções de Bob Dylan, e até nos solos magnéticos de Jim Hendrix. O surrealismo e o dada tiveram mais influências nas artes plásticas, afinal Salvador Dali foi tantas vezes para Manhattan, como o cubista Pablo Picasso adotou a cidade. A POP ART adotou o mecanismo da colagem criado por Lautreamont na criação envolvendo ´´um guarda-chuva e uma máquina de costura em uma mesa de dissecação`` e desenvolvida por Marx Ernst e Marcel Duschamps. Sim, a POP ART já profetizava a frase de Oswald de que ´´a massa ainda comerá o biscoito fino de que eu fabrico``.
Agora vamos falar do livro: Primeiro é bom deixar bem claro que ao escrevê-lo estávamos pensando diferente do ´´Amor América`` de Pablo Neruda, em que ele traz a gênese idealista de uma América quase desabitada nos versos ´´dos rios arteriais imóveis``, ´´das pampas planetárias``. Nossa América, diferentemente, já estava mais do que habitada.

Estamos pensando em uma PanAmérica do século XXI, como Agrippino a escreveria carregada de ambigüidades, sonhos e humor, como a colagem ´´Amor-Humor`` de Oswald. Esse foi e sempre será o sentimento que tenho da América, um pavor carinhoso, um assombro coberto de calor. Estava na hora então de surrealizar um pouco as landscapes como fez o francês Jean Baudrillard descrevendo as paisagens siderais em ´´America``. Já que Henry Miller afirma em seu livro escrito pelas estradas norte-americanas ´´Paraíso Refrigerado`` que os melhores livros escritos sobre os EUA são feitos por estrangeiros, nós resolvemos tentar. A nós nos interessa muito mais a visão inocente da América presente em Franz Kafka e Maiakovski, do que a raiva francesa que considera o homem-médio norte-americano um bárbaro. Sou pela defesa do bárbaro tecnicizado de Oswald. Depois virão Mariano Marovatto e Domingos Guimaraens aqui para explicar.

Portanto, sobre o AMORAMÉRICA me interessou muito a imagem lisérgica da casa de Andy Wahrol em que vi certa vez em um documentário, em que o artista possuía móveis com gás de hélio e quando queria fazia todos os objetos flutuarem para esvaziar sua sala. Tentei misturar essa imagem em meus textos com o questionamento das profecias do livro apocalíptico ´´The Fall of America`` de Allen Ginsberg, em que o poeta quer defender a profecia feita por William Blake de que a América se auto-implodiria em dois séculos (imagem esta quase de ficção científica à la Hollywood). Aqui vão todas as minhas homenagens feitas no livro a Superman, não estaria Blake descrevendo Kripton, o planeta que explode, seria a América Kripton para Blake? E não seriam os super-heróis norte-americanos a tentativa de criar mitos verdadeiramente americanos com traços gregos, assim como fizeram os romanos ao atribuir traços gregos a seus mitos, como Dionísio no processo que chega a Baco, etc, etc ? Acho que sim.

Portanto, esse sincretismo é uma parte importante do livro: como a nação protestante da América não possui santos, nós emprestamos os nossos de macumba par afazer parte do grande terreiro yankee criado pelos Sete Novos. Ou alguém nega que mesmo os protestantes entram em transe? Marthin Luther King entrou, tantas e tantas vezes, assim como Jim Hendrix de lá nunca saiu.Outro traço importante do livro são os nomes ingleses brasilificados em nosso liquidificador como Manhatã (como fazia Cazuza), e todos os nomes saxões que não estão escritos em itálicos e aparecem com letra maiúscula, claro, pois já estão apropriados no AMORAMÉRICA. Somos todos americanos. Se a grandiloqüência do Superman salvando o mundo pudesse ser aprendida por Macunaíma........

Aliás, nos filmes de Superman o planeta terra é sempre descrito por Planeta Houston, não é demais? E sem falar no Planeta Hoolywood, lanchonete que serve mundialmente hamburgers e sonhos, assim como as finais dos campeonatos americanos são sempre descritos como World Series. Realmente a grandiloqüência americana é demais e temos que aprender com ela: de Pernambuco para o mundo, de Pernambuco para o mundo.

Bem, vamos às referencias sampleadas de cada texto meu:
1)Em ´´Deusa EUÁ`` divido o espanto com o leitor ao descobrir que o nome africano para a deusa da sedução é realmente ´´Deusa EUÁ``. Por incrível que pareça o sincretismo africano já estava profetizando os Estados Unidos da América, e que seu presidente seria um dia o queniano Barack Obama. Kennedy não foi ressuscitado, mas a Mátria África veio enviada por Mamãe Menininha de New Hampshire para empossar Obama. Nesse poema também está presente a imagem forte de Elvis Presley como o primeiro a juntar música africana com música branca ao criar, ou pelo menos popularizar o Rock and Roll. Dessa maneira o mundo se sincretizou, a América de africanizou. A gênese aqui é formada por Deusa EUÁ, Elvis chegando até Obama.

2)No texto Kentucky procuro imaginar como seria se José Agrippino de Paula tentasse entender o Kentucky? Qual seria a profecia de Blake sobre o misterioso Estado? Como Kieerkegard descreveria o tédio norte-americano daquelas cidades pequenas com suas casas todas iguais? Como seria o carnaval em Kentucky? Bom, New Orleans possui o Mardi-Gras, que é um carnaval europeu, mas o Kentucky não, lá não há inversão nenhuma. O que Roberto Da Matta escreveria sobre um possível carnaval no Kentucky em que as mulheres gordas de frango frito começassem a entrar em transe devido a algum erro na produção do Kentucky Fried Chicken? Acho que essa visão é parecida com o poema de Domingos em que os índios entram em transe com Big Macs no estômago dentro do maior shopping indígena do mundo The Kenosha Project em Milwaukee, coisas que só mesmo os EUÁ fazem por você.

3) Em Oração ao Tiger Zé Celso imagino como seria se João Cabral usasse um parangolé e parasse para escutar música clássica, ele que odiava qualquer tipo de música, inclusive e principalmente em seus poemas. Critico muito aqui esses Neo-Yuppies do Hip-Hop que fazem suas músicas sobre sexo, dinheiro e carros de uma maneira tão agressiva que nem o mais Yuppie dos Yuppies acharia graça. Se é para África dominar o mundo que seja pelo bom propósito de Micheal Jackson cantando o fim da segregaçã racial em ´´Black or White``, ou pela lírica pujante dos nova-iorquinos do The Last Poets. No Hip-Hop o que me incomoda são as ausências de metáforas e ambigüidades, muito diferente do RAP proveniente da sigla rythm and poetry, isso é, poesia ritmada. Os rappers desenvolveram a poesia ritmada da qual odiava João Cabral. Sou pela delicadeza dos índios, sou pelo símbolo do real, sou pelo ritmo na poesia, e não essa dilaceração amorfa defendida pela indústria POP, em que seus heróis morrem de overdose e logo são reciclados por outros. Qualquer semelhança com George Bataille não é mera coincidência. Sou pela magia do cinema, com esse nome perfeito ´´Noite Americana`` para designar a falsa noite criada em estúdio durante o dia, não seria essa a ambigüidade mágica que interessa?Já bem o sabia François Truffaut no filme homônimo ´´Noite Americana``. Outra imagem importante desse poema é sobre o que dizia Nelson Rodrigues que ´´só os idiotas respeitam Shakespeare``, isso é, só os idiotas respeitam os grandes autores, como se estes estivessem canonizados e santificados. Os grandes autores estão aí para serem canibalizados, concordo demais com Nelsinho.
(TO BE CONTINUED)

5 de nov de 2008

Day after

Bem aqui estamos depois do lançamento e depois de Obama.

Jesse Jackson chorou e nós também. No RJ TV o lançamento estava parecendo festa infantil do Tio Carlos. Acho que fantasia de Homem-Aranha no meio do telejornal, entre crianças mortas de dengue e vazamentos da CEDAE, fica parecendo aquelas coisas de função social da arte, a alegria da poesia para tirar esses jovens das drogas. Mas Domingos falou muito bem, ao melhor estilo Vanucci no fim da copa de 2006: "A grande lição é que além de brasileiros ou americanos, somos seres humanos".

A platéia do McCain no seu discurso de derrota (IAÊ! LOOOSER!!!) estava repleta daqueles americanos odiosos. Dava pra ver na cara, na roupa, na maquiagem. Se Obama fosse eleito antes do segundo turno para prefeito aqui no Rio, provavelmente o Gabeira seria eleito. Mas se o sertanejo é antes de tudo um forte, o carioca antes de tudo é um burro. Depois mandamos condolências ao Eduardo Paes pela derrota do McCain.

Ontem eu estava vestido de collant azul, cantei Michael Jackson travestido de Homem-Aranha e em 90% dos livros vendidos assinei como Spiderman. Mas dizem que poesia hoje é assim. Os shows foram lindos. Augusto, trovador solitário, precisa gravar suas músicas logo, Do Amor quebrou tudo e foi genial como sempre, Jonas é meu doce de coco preferido. Vitor mostrou sua elegância cantando no Bob Dylan (desculpe mais uma vez errar no violão de About a Girl) e Alice é linda. Cantando Girl from Ipanema ficou mais linda. A Maravilha Contemporânea é uma delícia. Enfim, quem não foi perdeu. Fica o consolo dos vídeos em breve por aqui.

Obama, nós escrevemos o livro under a Bush administration, então faz bonito aí pra gente escrever um livro com mais hope and change do que ficamos acostumados a ver nesse início de século.

Sampa sexta-feira estamos aí!

7M

3 de nov de 2008

Sousândrade ao vivo

- Estamos aqui com Sousândrade, grande promessa do século XIX, descobertos pelos olheiros concretos no século XX. Sousândrade, o que você achou dessa capa maravilhosa do Amoramérica, você que já esteve lá antes de todos nós?

- São freeloves Ursar do Norte;
Ped'rasta o Cruzeiro do Sul...
= A yanky! o carioc!
Stock, stock,
Minotauro e de Io o olho azul!

- Obrigado, Sousândrade. É com você, Fátima.