27 de mai de 2010

Amor África (por 7A)


O Homo Sapiens, este animal do delírio, surgiu na África. Quando o hominídeo resolveu saltar de seu ócio, eis que nosso enigma veio à luz. Os veterinários estavam certos. Enquanto isso Campos de Carvalho declara: “Não me lembro de ter nascido. Meu registro de nascimento é um blefe. Sou tão velho quanto a África.” Lá vem o africano politicamente ereto, seu canto anuncia o dia. Cores terrosas anunciam a cabeça da medusa neste paraíso decaído. A serpente também é africana. Somos todos africanos. Comemoram os cubanos de Miami e os africanos de Beverly Hills. Aplauso para eles. Amor África.

Enquanto os H. heidelbergensis/ H. neanderthalis se espalhavam pela Europa, uma nova linhagem de hominídeos se diferenciava na África cerca de 200 mil anos atrás: o Homo sapiens sapiens. Notem que provavelmente existiram múltiplas espécies de Homo que não são nossos antepassados. Enquanto uma linhagem se diferencia em um local, outras podem surgir em outros. O Homo sapiens sapiens possuía uma capacidade craniana extraordinária e sabia usar ferramentas melhores e mais avançadas que os demais. Apesar de seu "sucesso" posterior, esta espécie surgiu a partir de uma população pequena, com 10 mil casais ou menos driblando e comemorando gol em banto. De repente estrelas desceram do teto.

Acredita-se que os Homo sapiens sapiens, com suas plumas e pedras, saíram da África cerca de 40 mil anos atrás e acabaram pintando a noite com seus pincéis atômicos substituindo todas as espécies de hominídeos espalhadas pelo globo, incluindo os neandertais (não se sabe se os neandertais foram mortos ou absorvidos pelos H. sapiens sapiens mas o fato é que eles "sumiram" mais ou menos 35 mil anos atrás). O resto é história, cidade, galáxia. Mas, qual o vermelho que sai do ovo?

Do outro lado nossos espelhos dormem. Uma festa belíssima com seus fuzis distribui fogos e metralhadoras de artifício. Viva a Copa 2010 (o ano do tigre).

24 de mai de 2010

Trapalhões 1970

Pra ser a melhor seleção de todos os tempos também tem que saber errar.
Gracias Pedro Birman por el video desde México!

21 de mai de 2010

Tabelinha com Drummond

A vida é curta,
Mas os 90 minutos são longos.

7D(rummond)

13 de mai de 2010

No futebol o número é burro.



No futebol o número é burro, a letra é um garrancho, a palavra tem erros de tipografia, ou melhor, tudo certo como 2 e 2 são 5. Outro dia numa pelada em Mesquita o filho do Waldir, que pinta o cabelo de acaju e apita todas as decisões por lá, levou um software chamado Futsync, que divide o campo de jogo em 12 quadrantes, marca quantos segundos cada jogador ficou com a bola, quantos passes, quantos toques, dribles, cruzamentos chutes, cambalhotas, firulas, quebras de asa e currupios; pra dizer no final quem era o melhor da partida e merecia o engradado de cerveja. Mas olhando o jogo e olhando o software todo mundo viu que ele é burro. Aqui não estamos na lógica das 370 jardas percorridas da conquista territorial do American Football, nem nas assistências decisivas daquele campinho de dança de salão do basquete. Se o Futsync vê naquela pelada de várzea o meio campista Pudim caminhando certinho com a bola, rodando feito um peão e passando com eficiência pro ponteiro Catatau que descia na direita, super bem marcado pelo grande beque Marcão, tudo certo pro software. Mas o campo de futebol varia entre 45M a 90M de largura por 90M a 120M de comprimento. Não! Mais do que isso. O campo de futebol é o retângulo do infinito das possibilidades. Um circo quadrificado cercado por meias-luas por todos os cantos com a feminina e imprevisível bola no centro do mundo. Tudo isso pra dizer que o software não vê a subida lá pela esquerda do inconstante Canhoteiro, envergando a camisa surrada do Coração Cansado, que na realidade foi quem recebeu a bola do Pudim e, sem deixar a redonda quicar, acertou um balaço no ângulo. O goleiro do Siri Valente ficou congelado até hoje debaixo daquelas traves do campinho de grama cortada pelo dente do pangaré manco da vizinhança. No fim a torcida do Coração Cansado vibrava com aquele 1x0 imortal. O Software deu o prêmio de melhor do jogo pra um outro sujeito que ficou 7 minutos e 48 segundos com a bola, deu 97 passes e só errou 3, chutou 19 vezes a gol, deu 17 assistências. O Canhoteiro, que tinha uma perna maior do que a outra é herói lá em Mesquita até hoje. Ele passou o jogo todo onde fazia sombra às 11 da manhã, só deu um toque na bola, com ela no ar, aquele chute dura até agora, há mais de 700 milhões de segundos nos softwares químicos dos HDs biológicos que viram a vitória do imponderável.

7D.

9 de mai de 2010

Pelé



Dê 1 soco no ar e comemore até segunda-feira
7A


Poema do 7M.

Partiu
Atirou
Entrou

7D.

6 de mai de 2010

Veneno remédio pós-dilúvio (Para José Miguel Wisnik) por 7A


Milhares de vidas vazias são iluminadas pelo circo simbólico da bola. Seja muitíssimo bem-vindo ao grande oráculo das multidões. O Eros futebolístico abre um sorriso em puro ato de gratuidade estrutural. Aqui está dada a história imemorial do futebol, maquete viva da hipnose coletiva. A bola, placenta celeste, musa para os pés exposta com suas vísceras geométricas, diamante sem furo, bola-sol, esfera-lua. O observador observa a dor do diagnóstico uspiano. O filho do vento encontra o filho do caos.

Em sua tele-onisciência Pelé separa arte e vida. Pelé calado é certamente um "poeta". Sua entidade dupla e mediúnica “Pelé” sabe muito bem distinguir os fatos dos acontecimentos. Aplausos para Edson Arantes do desfalecimento. O fenomenal Ronaldo deu o nome do filho em homenagem ao palhaço do Mc Donald’s. Roberto Carlos, o cortesão decadente arruma sua meia. Aplausos para eles.Este azougue mercurial é vendido como rito em pay per view com replays celestes expostos no ar. Pernas eloqüentes tocam o lado escuro das luas de mármore no placar sagrado das galáxias. Jogadores deveriam usar máscaras, identidades nuas, só assim conseguiriam reger oceanos.

Índios e astronautas da aurora aplaudem a batalha recíproca do futebol, competição televisiva pela ração diária de inocência, Graal moderno com suas quatro linhas lúdicas expostas à céu aberto. Coliseu cavando buracos na gravidade dos instantâneos de Pelé. Entre a dádiva e o veneno. Esperamos pelo nosso Maracanã metafísico. Os espelhos invertidos do Fla-Flu são ensaios de luminosidade noturna. O gol rege os cataclismos nesta gramática das chuteiras semiológicas com seus pulmões de travas. Esta é a caça recíproca dos deuses que dançam; deuses publicitários de si mesmos. Este é o improvável balé das luminárias babilônicas. O Olímpio trágico do Maracanã é o nosso laboratório ancestral. Rola a esfera na terra sintética do espetáculo, órbita em permanente assunção ao rés do chão.

Medusas de gasolina abrigam este transe terreno luminar. O goleiro, sagrado e maldito, mãe do galináceo na vulva etérea das balizas, mãe do marco zero, mãe da meta virginal, deflorado paraíso. Balizas nascem do gol como telas contíguas a qualquer escala do corpo humano, rodeadas com eróticas redes. Anjos famigerados jogam vídeo-game num festim telúrico. O vídeo-game é a mais perfeita anestesia da cultura do simulacro. Gols concretos e elegantes são depositados pela esfera etérea. E segue o baile do destino que se decide em ato; nas cinzas da grama onírica. Medita o goleiro-engenheiro na geometria de seus gestos econômicos. A vertigem do gol sempre abre uma fresta no espaço, todo gol transborda por ser irreversível.

A medieva lunar é bem diferente da bola de gelo da deusa Nike? “Tudo que é belo sempre aconteceu na solitude; nada aconteceu em uma multidão.” Fronteiras são transformadas em ato no limite do suspense, um mar humano comemora. Macunaíma adivinhou Garrincha. Dorival Caymmi [o Macunaíma do dendê, técnico perito em matéria de ócio] aplaude tudo junto com todos os filósofos da praia. O circulo central imita o sol, a meia-lua é seu contraposto. Performances visuais são depositadas nas retinas dos bonecos de mola, hermeneutas do transe, acrobatas da navalha desta obra aberta.

Mas quem será imantado pelo mito? O sagrado do placar só será entregue à eternidade pelo derradeiro apito do juiz. As logomarcas dos demiurgos estarão escritas nas bolas translúcidas de linhas imaginárias. Uma musa pelada em branca disponibilizada para o nada. O tédio de Romário mimetizará a caça, transmutará caça e caçador; aplausos para o nosso sacerdote de asas quebradas. As traves são planeta grávido de gols, corpos telúricos sexuados, viscerados de noite.

Orquestra elástica, emblema da menstruação urbana que os vídeostapes não irão mostrar. O campo daqui é um simulacro do campo de lá. Nós focais obnublados por uma bola a enfrentar o limite real do chão. A morte simbólica do adversário é somente um passo rumo ao troféu. Assim, cada gol servirá de oferenda contra a deterioração limítrofe do sol. O eixo de cada estádio assim se ligará às dimensões subterrâneas do céu. Pelé quer fertilizar o sol.